quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A cítara que encantou



Ontem , 12-12-12 ,passei o dia a ler mensagens referentes á importância da numerologia no calendário Gregoriano e passou-me completamente despercebida a morte de Ravi Shankar enquanto ouvia pela manhã  as suas composições e concertos com a orquestra de Londres como se de um revivalismo se tratasse.

A cítara é sem dúvida um instrumento que me agradou desde criança; muito pela sua harmonia e delicadeza de tonalidades , mas também pelos ambientes sugeridos pelos seus intérpretes.
Assim como o qwaali , canto religioso da Índia muçulmana, as ragas têm o fascinante poder de exultarem emoções e estados de espírito que vão para além do real ... praticamente criando plataformas reais para atingir o intangível.

Para quem não está familiarizado com este tipo de música, aqui ficam duas composições que me agradam bastante: uma pelo Ravi Shankar + Philip Glass e outra por  L. Shankar que contribuiu para a banda sonora de um grande filme de Martin Scorcese : "A última tentação de Cristo " que fez as minhas delícias melomanas nos anos 80 e até hoje.

 
 It stars Willem Dafoe as Jesus Christ, Harvey Keitel as Judas Iscariot, Barbara Hershey as Mary Magdalene, David Bowie as Pontius Pilate, and Harry Dean Stanton as Paul. The film was shot entirely in Morocco.
Like the novel, the film depicts the life of Jesus Christ and his struggle with various forms of temptation including fear, doubt, depression, reluctance and lust. This results in the book and film depicting Christ being tempted by imagining himself engaged in sexual activities, a notion that has caused outrage from some Christians. The movie includes a disclaimer explaining that it departs from the commonly accepted Biblical portrayal of Jesus' life, and is not based on the Gospels.

E, que tão poderoso e intenso quanto o olhar deste senhor ?
Só mesmo a sua música !
R.I.P.





sábado, 10 de novembro de 2012

Lucinda , luz e mar


Há qualquer coisa de muito triste no teu olhar, Lucinda.
uma história de eventos que te pesam as pálpebras e que me fazem chorar.
No teu rosto de menina Inês envelhecida ainda guardas a esperança de salvar o mundo, aquele que confundes com o teu mundo.
Andas sem rumo, Lucinda; e como é possivel se o teu nome é luz e os teus olhos , águas transparentes ?
Como é possível provocares-me receios de te perder se nunca me foste próxima?
Como um ladrão de corações, passaste por mim e deixaste-me vazia.
Se tudo o que quiseste fazer pelo mundo te deixou assim...


Lucinda , de olhos cansados de estarem postos no mundo abandonas a tua estima e deixas-me a tarefa de me preocupar em saber se o mundo é suficiente grande para ti.


Lucinda, há algns anos atrás... 
  

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Outro possível monólogo...







Sabes, príncipezinho, se trazes contigo uma semente que tencionas germinar, não te esqueças que essa flor vai precisar da tua atenção para crescer;
vai precisar do teu amor para te regalar beleza;
e nada mais do que um piscar de olho de paraíso te vai poder oferecer.
Porque o paraíso é a imaginação que germina a dois  quando se encontram na arte de amar;
 o som e o movimento mestrados pelo corpo e pela palavra .

Sabes, prìncipezinho, um dia, vou-te contar a história do chá...

Mulher andando nua pela casa



"Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.

Não é nudez datada, provocante.

É um andar vestida de nudez,

inocência de irmã e copo d'água.


O corpo nem sequer é percebido

pelo ritmo que o leva.

Transitam curvas em estados de pureza,

dando este nome à vida: castidade.


Pêlos que fascinavam não perturbam.

Seios, nádegas (tácito armistício)

repousam de guerra. Também eu repouso.



Não tenho pressa no repouso. Coisa natural. Comecei tarde."

Carlos Drummond de Andrade 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim"




O mundo não muda , as mentalidades  não mudam .
O homem oferece resistência á mudança.   
Mesmo que hajam pontualmente pessoas bem intencionadas em renovarem hábitos bafientos e proveitosos só para uma elite ou para próprio beneficio de quem o sabe tirar através de mercados financeiros desregulados, esses mesmos aventureiros serão recordados somente como alguém que quis mudar a história e nada mais.

Os media , os governos e os legisladores estão directamente dependentes de quem lhes dá poder para poderem auto garantirem-se financeiramente e neste momento não existem interesses em salvar países, estados ou sociedades da banca rota.
Quem sabe fazer dinheiro , fá-lo na sombra dos outros e para ter um imediato  lugar ao sol . O tempo, a experiência e o trabalho já não fazem riqueza nem novos ricos. Hoje existem espertos que se gabam de saltar muros da decência financeira para seu próprio beneficio e os que não se gabam fingem estarem numa situação aflita como a maior parte das sociedades em perigo de colapso financeiro. 

Já não vejo o jornal na televisão e pouco falta para deixar de ler o jornal.
O que se passa no mundo nada é mais do que uma pantomina encenada por homens de colarinho branco ,de ar frio e calculista e que se sociabilizam e rodeiam de muita gente para parecerem humanos como os outros.

A vida acontece á minha volta a cada minuto que passa e sou eu que dirijo a minha atenção para o que me faz bem e para o que me alimenta o espírito, esse sim, o único que não pode ser valorizado pelo dinheiro . A única riqueza que esses homens não têm e que nunca compreenderão a razão da sua importância, porque pensam que nunca se sentirão sós e vazios, até...

terça-feira, 6 de novembro de 2012

100º pensamento





" O cataclismo não acontece e nós nada fazemos porque estamos de novo no centro da vida normal, onde a negligência adormece o desejo. E, porém, não deveríamos precisar de cataclismo para amarmos a vida hoje. Deveria ser suficiente pensar que somos humanos e que a morte pode chegar esta noite " 
Alain de Botton in Como Proust pode mudar a sua vida


 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012


Todas as manhãs são diferentes o pelo tempo ou pelo que se passa na paisagem, mas porque no processo do sono também há regeneração, mutação, mesmo que a sensação seja a de eterna imutabilidade...
Os nossos sentidos enganam o processo de percepção e racionalização por estarem intimamente ligados a um comportamento fisico rotineiro , impedindo assim o livre arbítrio do movimento espontãneo.
Existem manhãs assim... 

Quando o sonho nos suspende a vida.



 “O meu teclado branco espera por mim todas as manhãs.
Também ele já está a perder o brilho das teclas, sinal do uso desenfreado que lhes dou.
Nem sempre consigo chegar e debitar.
Em algumas manhãs há palavras que se soltam e que pedem para ser ditas.
Noutras tenho de ser paciente.
Esperar que as palavras acordem e se queiram dizer. Nunca me rendo à preguiça delas. Quando elas me parecem mais ensonadas escrevo-as mais devagar.
Para que despertem serenamente e não se digam atropelando-se umas às outras.
Elas lá vêm. Eu, qual mãe dedicada, pego-lhes ao colo.
Embalo-as e transformo-as em símbolos alinhados no
meu teclado branco que já está a perder o brilho das teclas”

“O acto de escrever exige continuidade”.
Al Berto

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

My vegetarian racer


Now that I know that you are eating properly , not forgetting about minerals through seaweeds and proteic oils in the nuts , you can have lots of fun being creative...or asking the chef to be creative.


I forgot to include a pair of glasses made out of algae :-)
Enjoy it!!!

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Sandy soil


Natural disasters always lift up mind quakes.
 It has been so, since the passage of the first millennium to the big earthquake in Lisbon during the iluminism currant and thinkers have to re think life...
for nature is the only thing man cannot dominate: its power, its transformation and its capacities for the unexpected.
Man went through a world trip during the romantic period , eager to be acquainted to the various flora and fauna species and was overwhelmed by them , but then, nature was quiet in its path and ready to be contemplated...
If there will be another climate change...nobody knows and even scientists can't know that.


The only thing one can do its to keep respecting and contemplating what nature has to offer us within its rage or its quietude.  
These photos are for Jesse and Joel that live in Greewhichvillage and might be off work for they are not replying me back since last night.
Best of luck! 


This picture was taken from my balcony this morning: after the storm there must be a rainbow...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


 
" You say you love rain, but you open your umbrella.
You say you love the sun, but you find a shadow spot.
You say you love the wind, but you close your windows.
This is why I am afraid,
you say that you love me too" 
William Shakespear 

domingo, 7 de outubro de 2012



Dou por mim a entrar na Basílica da Estrela .
Sabia que era hora de missa e Domingo, mas deixei-me levar como me deixei levar no dia 1 de Novembro de 2005 na igreja de S.Domingos aquando dos 250 anos do terramoto de Lisboa.
Não sou crente e sempre respeitei quem o é, mas sempre evitei entrar em templos na hora das suas homilias.
Não era para ir correr para o jardim da Estrela. Andei que nem uma barata tonta á procura do meu cartão do ginásio que não encontrei e decidi assim, ir para a Estrela.
Sabia que ia ser tentada a entrar na capela funerária. Sabia que queria despedir-me de ti e sabia também que não era obrigatório despedir-me oficialmente, aos olhos de todos.
Entrei na igreja já no final da missa. Olhava para os quadros presos a paredes de mármore frias e era assim que me ia distraindo para não verter ali todas as lágrimas que tinha para te oferecer - técnica utilizada quando era adolescente para não chorar nas salas de cinema.

Pensei no teu rosto impávido , sereno , inabalável quando confrontavas os nossos políticos em debates em que os descartavas, pela tua noção e decência de ciência politica e quis ser como tu na minha vida privada ;
queria poder exibir-me como uma fortaleza á beira-mar; queria que todos os homens e mulheres me quisessem confrontar com as mesmas armas ... se de armas tivéssemos que tratar;
queria acima de tudo esconder tão bem como tu, a fragilidade tão inerente ao mundo das emoções e tão susceptível de ser abalado com um simples beijo ou um terno olhar.
E no teu olhar de mulher guerreira sentia a tua fragilidade no momento do impulso do ataque á presa; atacavas de surpresa e era uma morte anunciada para quem te tentava substimar.
Foste uma profissional exímia, infalível e ainda mais, a mulher perfeita para poder acabar uma polémica... com o sorriso mais doce.
Paixão á primeira entrevista desde que te ouvi falar ainda na adolescência. 

Quis ser como tu. Quis muito pôr muita gente deste país no lugar deles e remete-los numa caixa postada para a China.
Quis tanto ser implacável que redigi textos livres em jornalismo que depois era obrigada a ler em voz alta para a turma inteira ouvir a força dessa rebelião, indignação e inquietude de temas tão vastos e tão remetidos a tabus. 

Quis mudar o mundo, como tu .
Quis dizer-te tudo isto e já disse. Já está. Já me podes ouvir.
Agora já sei que te vou ter que reencontrar neste céu imenso, escuro,mas cheio de estrelas que me iluminam...como tu.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Se sombras...ao sol !




Normalmente não escrevo sobre livros que me decepcionam, mas porque se fez um alarido desmesurado sobre a trilogia de El James - As sombras de Grey - tenho como dever para com os amigos, não recomendar de todo esta obra.
Para além de ser uma literatura paupérrima em estilo e vocabulário não oferece nenhum fio condutor de história para além do "déjà vu" :" rich boy meets naive , virgin girl " e enfiam-se num quarto de fantasias eróticas para nos contarem como chegar ao orgasmo.
Sendo assim, prefiro viver a minha história !

 Para quem está habituado a ver bom cinema onde o erotismo é uma segunda pele e não o instrumento de masturbação, existem filmes que nos deixaram um gosto do que foram boas histórias levadas para a sétima arte : "Último tango em Paris, "Nove semanas e meia" , " Império dos sentidos", e "Tess" para além de outros mais que me escapam agora.

Na literatura e até hoje, só houve um livro que me perturbou pela sua sensualidade constante num mundo distante e quase fazendo parte de um prazer sonhado , desmistificado após a racionalização da efemeridade dos estados de paixão e de enamoramento ; romance do indiano Tarun J Tejpal - " Longe de Chandigarh - que não está traduzido para português.

 Felizmente que durante esta época que não é alta em trabalho, mas também não é baixa suficientemente para serem apelidadas de férias, também houve tempo para me dedicar a actividades no exterior e rever amigos; conhecer novas gentes e começar a tecer relações que me levarão a outras experiências, essas sim, que são a minha vida.

 Quase como se de um balanço se tratasse , este Verão poderá vir a ser um marco a nível de reestruturação social : devido á crise económica que já se faz sentir : nas bombas de gasolina, nos restaurantes e na hotelaria ( que baixou substancialmente os preços), resta assim - gostaria de acreditar - mais tempo para apreciar a companhia que podemos escolher para partilhar momentos sem fernesins ou barulhos de fundo; a descrença nos media que vem a crescer e a consciência que temos de pensar e questionar para além do que nos é anunciado, pois nem governos têm solução para esta ditadura financeira que nos levou á beira do precipício; a educação superior que começa a deixar de ser vista como a tábua de salvação para um futuro radioso...

 Talvez seja agora que a tradição moura , que nos era tão visceral e que cozinhava cumplicidades entre famílias e amigos, volte ás reminiscências do que já foi : as histórias verbais que se passavam como cordas seguradas por marinheiros ávidos de chegar a bons portos e os olhares sequiosos por conclusões que acusavam urgência em procurar desfechos.
Não quero voltar atrás, só gostaria de seguir o caminho mais aprazível para um dia poder dizer com um grande sorriso : cheguei e vou ficar!



domingo, 9 de setembro de 2012

Ion junkie


Enquanto estou na água a esperar pelas ondas certas penso na sorte que tenho em ter o mar tão perto. 
Há uma concentração maquiavélica e uma abstenção de tempo que só é sentida após o inicio do desgaste físico e aí é quando o cansaço é compensado pela sensação de leveza ... sustentável.
Uma vez em casa , o sono é imediato se me encosto. E aquela mesma leveza que se consegue enquanto se flutua na prancha é - na cama - uma ilusão entre um desmaio consciente e um lento levitar para ficar a boiar nos sonhos...

Procurei uma explicação para os efeitos secundários ressentidos após tal prática que é viciante desde a 1ª vez e encontrei esta que me apraz bastante :

"While surfing, we experience elevated levels of Adrenalin and Dopamine. Adrenaline raises your heart rate and increases your reaction time (the fight or flight reflex), while Dopamine is a chemical neurotransmitter triggered in your body when you are doing something you like. “Adrenaline junkies” – such as big wave surfers – get used to higher levels of these chemicals, as demonstrated by Keanu Reeves in Point Break (see video).
While this adrenalin rush may give us an edge in the water the effects subside quickly once ashore, while surf-stoke remains long after we’re back on the beach. Research suggests these persistent effects of surf euphoria may be attributed to an unlikely candidate: sea spray.
The turbulence created by breaking waves alters the physical structure of the air and water, breaking apart water and air molecules and releasing charged ions* into the atmosphere. On their eternal quest for perfect waves surfers inevitably encounter this altered atmospheric state.
Some scientists are convinced this abundance of negative ions has a positive effect on mood by triggering the release of endorphins and serotonin – the “happy hormones” – and increasing blood flow and oxygen circulation through our bodies."

 http://www.theinertia.com/environment/scientists-froth-on-surf-stoke/?fb_action_ids=4403654570240&fb_action_types=og.likes&fb_source=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Uma questão de confiança...

Existem três nascimentos :
Um primeiro de que não somos responsáveis;
Outro , de que somos responsáveis, por escolhermos a nossa vida;
E um terceiro que é a visão dos outros sobre nós, tão incerto quanto o primeiro.

Porque a confiança é um sentimento que se adquire pela relação que se constrói com alguém e com quem se partilha algo de único;

Porque a confiança é adquirida pelo passar do tempo que nos valida esse estar de beneficio em relação a outro;

Porque quebrar essa benesse é desprezar essa dádiva que nos é presenteada; 

Porque confiar em alguém pressupõe que tenhamos estima por essa pessoa;

Porque a confiança requere estabilidade e constança; 

E porque confiança requere respeitar o outro e ser respeitado ;

Desconfio, que quem não confie, não é digno de confiança.
E sem confiança não há relação possível! 

Quem quiser ficar, fique por bem.
Quem não for confiante, passe ao largo, obrigada!
Há sempre um buraco para cada minhoca...
Muitas ... nunca chegam a ver a luz do dia!




Tell me what you do, I tell you how transparent you can be

Just thought about sharing this... as one knows, how much responsability hedge funds have within the financial world...


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Walking on water

The freedom of having no consciousness of time,
The greatness of feeling weightless,
The dare to be fearless,
The chance to walk on water
and flying on dreams
The urge to drink water from an oasis
when drying out on the desert
(The void felt by, simply, not daring...)
The sight
Shortened by daily obsessions
Not ever knowing how beautiful and light life can be...just for once... in your life time.


To my brother , Bijou

 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Heureux/ Malheureux

"Les gens heureux ne cherchent rien, et ne vont point avertir les autres de leur bonheur;
Les malheureux sont intéressants, les gens heureux sont inconnus".
Mme du Châtelet

Life can be fulfilled with happy moments, but not everyday or every minute otherwise one would be exceeding the happy hormones that are activated by outer impulses like: odors, touch, vision and taste catchings .
No one would be physically able to support it, it's impossible; but one can make the right options in order to be able to purchase more of those moments, constantly...so am I starting to believe :-)




quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Barcelona com Gracía

Há uma década que não ia a Barcelona como turista e desta vez tinha como missão apaixonar Frank pela cidade que me apaixonou desde a primeira vez que a visitei. Levei o guia para rever o que havia a rever a dois e como tínhamos uma semana para divagar pelas ruas e pelas noites - tão doces - deixei que o nosso ritmo também fosse dando o compasso.


 Gaudí ainda é o responsável por esta paixão antiga e Frank também se rendeu ao mestre do modernismo do séc XX.
As ruas estavam atoladas de turistas , não havia sossego em nenhum bairro; os melhores hóteis estavam cheios e Frank adorava ver o movimento de turistas que insistiam em fazer rolar os malões de viagem pelas ruas afora. Inicialmente perguntou-me onde é que toda essa gente ia com as malas a trás... seriam sem abrigo ?


Para um americano de Dallas esta modalidade de poupar dinheiro em táxis é surreal e insistia, um tanto descrente, em reafirmar que só poderia ser uma nova modalidade desportiva que num futuro próximo seria utilizada para competição nos jogos Olímpicos.
Pulámos para um autocarro de dois andares onde no topo a brisa do movimento compensava o calor que se sentia e seguimos a rota de Gaudí.
Este tinha sido só o primeiro dia que nos deu o gosto daquilo que não gostávamos -  MULTIDÕES !

Consegui convencer Frank que a melhor maneira de conhecer uma cidade é a pé e o resto dos dias fomos pouco a pouco passeando e errando nas ruas deixando o guia para trás e parando em cafés para refrescar e observar os outros.
O porto á noite contínua o centro de recreio de gente descontraída e de banhos para os mais exóticos . Aprazível paredão extenso onde de dia uns andam de patins ou de bicicleta e na praia cruzam-se nudistas desde o novo hotel W até ao primeiro pontão ; e á noite uns pedalam um estabelecimento de cerveja que se move enquanto beberricam Estellas anunciadas neste veículo tão original onde os consumidores de cerveja vão gastando as suas calorias pedalando e ingerindo mais líquido pelo exercício que os vai secando.



Fiquei com a certeza que não volto mais a Barcelona em pleno Estio e não fosse eu estar tão limitada com tempo, teríamos fugido para o Texas. 

Continuo com a sensação que Portugal não tem mais turistas por não haver divulgação nem marketing do nosso país, o que é realmente de lamentar num Portugal que precisa tanto de dinheiro.
Temos hóteis de uma qualidade superior que estão a 75% ;  restaurantes que deliciam turistas de qualquer nacionalidade ou estrato social; simpatia e acolhimento como em mais nenhum país do mundo ocidental  e praias dignas de um sonho de uma noite de verão. 
Senhores governantes , em vez de fingirem que se contêm na Manta Rota , comprem uma mísera passagem na Vueling para Barcelona que fica mais barata que as portagens na A2 e vejam com olhos de ver o que é fazer dinheiro num país tão bom quanto o nosso!


Ficam como boas experiências gastronómicas, os restaurantes: Barceloneta no port Vell junto á marina, o Botafumeiro em Eixample e o Rias de Galicia onde a nossa última noite foi premiada com a melhor aventura gastronómica da cidade e um serviço tão personalizado que me cria em casa.

And last ,but not the least....o meu companheiro de viagem que mais uma vez me presenteou com as suas histórias tão especiais e que o fazem tão especialmente apetecível.
E que Taleia que levámos !

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Traveling as one likes...





Anyone who opens an Atlas
 wants everything at once,without limits. - The whole world !
This longing will always be great
for greater than any satisfaction
to be attaining what is desired.


To Frank

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Frankly... to Frank !

Frank entrou pela minha vida adentro como se entra num Hall de hotel escuro e se procura alguma luz para poder admirar o inicio de uma estadia.
E, afinal , quem tinha luz nos olhos era mesmo ele. Só que não o sabia. Ofuscava-me  com a sua simplicidade e franqueza... dom, hoje em dia, em vias de extinção.

Muita gente, de muitas origens e de meios sociais díspares viajam pela minha vida , assim como me permitem viajar um pouco no mundo deles quando fazemos interlúdios culturais para sermos mais pessoais. A vida tem como um dos caminhos, a partilha. Nessa partilha pessoal de todo o nosso universo também absorvemos outros universos, alguns tão longínquos que achamos não poderem fazer parte do nosso universo...só por que nos é diferente e tão distante. O ser humano oferece mesmo resistência á mudança.

Lembro-me de ler Borges e pensar que era feliz por ter tido sempre uma curiosidade pessoal em tudo o que era diferente e também por me ter adaptado facilmente a vidas, culturas e países tão diferentes. E realmente foi verdade, enquanto andava nessa viagem de descobrimentos. Nunca pus como hipótese ,um dia escrever sobre como a experiência ao longo dos anos de uma vida pessoal rica pode mudar os parâmetros de comportamento , pois pensava que ia ser irresignada e rebelde para sempre e com causa .

Também nunca foi da minha natureza ou experiência de vida tentar classificar os comportamentos no foro de género humano : masculino/feminino. Embora sempre tivesse tido mais amigos que amigas, isso devia-se ao facto de haverem temas sociais/políticos que eram mais esclarecedores e pragmaticamente discutidos com homens .
No entanto, só mais tarde me fui apercebendo que a média do homem Português e devido á sua educação judaico/cristã e latina , é um homem que escolhe uma mulher com fins procriativos independentemente se consegue ter uma conversa ou intimidade dita decente/ aprazível com a mesma. Poucos querem a companhia da sua companheira para outras tarefas tidas como hobbies ou partilhas intelectuais, o que sempre me deixou triste por o constatar.

Frank apareceu despido de filtros educacionais ou sociais e provou-me para além do meu esquecimento que afinal podemos ser únicos, bons, espertos, francos e ainda guardarmos a criança que tantas vezes é esquecida debaixo de trapos e de carros topo de gama.
Feliz por teres espreitado e entrado na minha vida, Frank.
Eu olhei para a repleta vida dele e assustei-me com tanto poder , mas o seu brilhante olhar de criança foi o hall de entrada.
Let's play it right!


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Revisitando Mr. 5%

Hoje o meu percurso em trabalho levou-me a uma visita especial ao museu Calouste Gulbenkian. Cerca de 200 Arménios espalhados pelo mundo inteiro e chegados á gare marítima de Alcântara tinham como desejo visitar o museu que este sr. de origem Arménia deixou a Portugal após sua morte.

A história deste ilustre mecenas e coleccionador de arte é pouco conhecida no nosso país,mas também nos países por onde viveu : Inglaterra, França e Egipto.
Nascido na parte oriental de Istambul, Gulbenkian, oriundo de uma ilustre família Arménia que remonta ao séc.IV acabou os seus últimos dias em Lisboa onde o sabor a calma e plenitude lhe enalteceram a vontade de aqui deixar uma fundação com fins educacionais , filantrópos e científicos.

Desde muito cedo começou a coleccionar arte e é na sala dos medalhões de Aboukir e moedas gregas e romanas onde nos damos conta das suas primeiras peças de colecção.
 Porém, é na sala dedicada ao Egipto que nos deparamos com a selecção apurada e distinta dos artigos meticulosamente escolhidos por Howard Carter, egiptólogo responsável pela descoberta do túmulo fechado de Tutankamen e marchand de Gulbenkian.
Não é da exposição que vos quero falar, pois de tão ecléctica requere tempo e texto que não poderia dispor.
É da vida deste homem que seguindo os estudos de engenharia e ciências aplicadas foi o pioneiro nos projectos de extracção de petróleo no médio-oriente e também arquitecto financeiro para encontrar os parceiros mais correctos para assegurarem o financiamento deste projecto tão inovador no inicio do séc.XX.
Não só conseguiu a confiança de investidores como a Shell, Banco da Turquia e Deutsch Bank e British Petroleum, mas também com esta atitude conseguiu afastar o interesse algo obsessivo dos alemães em se estabelecerem a solo neste território que detinha então a maior reserva de petróleo do mundo.

Toda a sua biografia que é apaixonante pode ser agora lida graças a uma nova edição com prefácio do seu neto Michael Essayan.
E aqui fica um vídeo que poderá abrir o apetite para conhecerem um homem que tanto amou Lisboa e que tanto nos deixou ... pelo seu neto.



segunda-feira, 9 de julho de 2012

Palavras e rostos

Tanto que gostaria de ter partilhado todas as experiências que tive nestes últimos dois meses em que nem abri o meu blogue...
Cada cliente, um mundo e cada mundo tão diferente do meu...
E cada história contada a cada um...cada reacção, uma reinvenção da história.
O tempo foi passando sem que pudesse estar com os amigos para partilhar o que mais há de belo nesta passagem consciente pela realidade.
E agora que tudo já parece longínquo,
Agora que me parece descabido contar o que me deu brilho àqueles dias em que estava privada da minha vida privada,
questiono-me:
Será que esta profissão em que tanto me envolvo não me rouba o que de mais tenho de precioso ?
Onde fica o tempo para os queridos ?
Serão ainda tão próximos se continuar tão distante ?
Repenso uma linha ténue entre o prazer de "guiar" e o aconchego da minha intimidade...
E ficam rostos e momentos ...que já fazem parte de um passado.
Amo-vos !



                                      Happy moments !!!!
































domingo, 6 de maio de 2012

Uma série de eventos pouco prováveis - II- Pug - de Mercúrio

Com a agente D aprendi que era importante fazer uma investigação linear do perfil dos clientes com quem vamos trabalhar por algum tempo , nem que seja um só dia.
 A inteligência emocional é cada vez mais necessária para a captação de atenção do cliente em relação ao que queremos que seja importante durante a sua visita e conhecendo um pouco do mundo do cliente poderemos partir á conquista dos seus interesses e introduzir a realidade portuguesa como parte de um deles.

Pug é uma raça canina conhecida pela sua aptidão algo teimosa de não largar a presa. De focinho achatado,  corpo maciço e pequeno , pode designar-se como um cão que pode dar alguns problemas se bem treinado.
O meu cliente, também assim cognominado, não tinha ar de ter dado ou vir a dar algum problema ; mas quem sou eu para saber julgar carácteres...

E, como logo no primeiro dia me apaixonei pelo facto deste senhor deter vastos conhecimentos  da nossa cultura e história, esqueci-me de sondar o seu nome no grande motor de busca da nossa era.


Ao terceiro dia por ainda não ter obtido nenhuma confirmação conclusiva da sua formação ou profissão, agarrei-me ao email da empresa que Pug oficiosamente me tinha cedido como sendo a sua para nos comunicarmos em viagem se necessário.
E mesmo para quem não é religiosa,exclamei :
- Jesus ! - claro está , influenciada pela proximidade com a agente D.


Após ter descoberto que o meu cliente tinha sido o responsável pelo golpe financeiro da Enron que ajudou nessa altura a empresa petrolífera de Bush... não sabia como é que o iria encarar no dia seguinte. Muitas outras coisas não tão melhores ficam por dizer ,mas todas elas vêem bem explicitas na página da International Corruption Org. e com a sua foto bem vísivel para que como sempre, eu não pudesse contornar este perfil sob pena de cair na tentação de pensar na possibilidade de existirem dois homens com o mesmo nome e assim , desresponsabilizá-lo.


A semana decorreu muito intensamente, pois acima de tudo, Pug é um homem-renascença , humanista e ex-reitor de Harvard - destituído aquando do escândalo financeiro que levou a Enron á falência.

A sua esposa, Dee, designada pelos norte americanos como tipo Alfa ( capacidades de leader e carácter dominador ) desvendava progressivamente um Pug generoso, justo e resignado ao ditado : "what goes around comes around ". 
Nas suas longas divagações sobre o grande Oriente não faltavam referências ao protocolo do governo a que se tiveram que sujeitar e que muito já diziam sobre a facção republicana. 

E foi com o Oriente que começámos a programar uma possível viagem a Kerala e a Burma.
Pug, ouvia e sabia que estava excluído destes planos futuros e são nestes momentos de cumplicidade e de partilha que os momentos ficam associados a histórias , lugares,  odores e sabores ; como nessa tarde de Abril na Foz do Porto com uma forte envolvente a iodo e a café onde discretamente tirei uma foto a um homem que não pensei vir a ter o mínimo de simpatia.

Os seus conhecimentos históricos eram vastíssimos e a sua neutralidade religiosa, embora judeu de origem, era admirável.
Pragmático e com sentido de humor, Pug fez-me uma pergunta que lhe valeu a minha admiração incondicional :
- No séc.15, assim como os portugueses andavam a delinear a costa Africana também andavam os chineses com as suas embarcações bem preparadas e com homens tão meticulosos em matemáticas como os árabes. A sorte dos portugueses foi essa dinastia chinesa não estar interessada em colonizar terra , senão que língua se falaria hoje em Portugal ?


Adoro reptos culturais para os quais as respostas são como a imaginação :  do tamanho do nosso universo !


domingo, 29 de abril de 2012

Uma série de eventos pouco prováveis - I - A Sra. de Marte

Quase todos os amantes de filmes e de literatura de suspense gostariam pelo menos uma vez na vida de terem privado com um agente da CIA ou qualquer outro membro participante de uma organização de serviços secretos, não ?
 Finalmente, tive a minha oportunidade, mas como prestadora de serviços de guia-intérprete no meu país não pude abusar do meu tempo limitado a questões ao cliente, mas D foi a agente mais "sui generis" que já alguma vez imaginei poder existir nesse meio.

 D de estatura alta e fina poderia passar por um homem quando usava a sua longa gabardina e o seu chapéu onde enrolava o longo cabelo negro para cuidadosamente o proteger da chuva miudinha.
Distraída, passo largo e descuidado e constantemente a metralhar instantes com a sua Nikon profissional, D faz parte de um grupo de viajantes que trabalha com a National Geographic .


Enquanto lhe falava da praia do Restelo e da placa tectónica sob Lisboa , D sorria e perguntava se normalmente se viam submarinos no Tejo. Eu sorria e respondia-lhe que desde a "neutralidade" politica portuguesa durante a II G.G.M. tínhamos começado a avistá-los ao longo da costa portuguesa e também no Tejo e desde então, até tínhamos investido recentemente na compra de mais alguns , pois na altura da visita dos primeiros submarinos alemães e americanos ainda não tínhamos nenhuns ; e ficámos sempre com a ideia de poder investir nessas embarcações tão importantes para o desenvolvimento cientifico...
O gelo quebrou-se com a gargalhada de ambas e a proposta seguinte foi o pastel mais famoso de Portugal, o de Belém.

Quando lhe contei que os monges que anteriormente tinham vivido no mosteiro dos Jerónimos se tinham dedicado ao fabrico destes famosos pastéis, D concordou que a melhor aptidão dos monges era sem dúvida a doçaria.
E foi durante esse momento gourmet que D confessou o seu estatuto civil de reformada, embora com 50 anos , mas por ter sido agente da CIA que como a variante de stress na sua vida profissional lhe valeu uma reforma antecipada.


Foi aqui que entrou um dos meus actores favoritos em cena : John Cleese - aparentemente a CIA vai buscar os personagens mais díspares para organizarem formações de pessoal onde  entre muitos outros citados foi :  um dos membros dos Monty Pythons.

Dedicou-se á cultura vinícola e sobretudo á produção de um vinho pelo qual se apaixonou - o Alvarinho ! E decidiu voltar a Portugal para rever o país de onde é original uma das suas várias paixões.


Deliciei-me com as várias histórias de D enquanto nos dirigíamos para Tomar para visitar a sede dos Templários  de quem, surpreendentemente, D nunca tinha ouvido falar.

E como quem conta um conto ... pode acrescentar mais outro conto, ensinei-lhe que aqui em Portugal a sexta-feira 13 não é dia de azar, pois o nosso rei D.Dinis não ordenou a crueldade vinda de Avignon para erradicarem da Europa essa distinta ordem dos Templários que para além de serem nobres e sábios, também emprestavam dinheiro.
- Jesus!!!! - Disse D.
Acho que percebeu tudo!

E despedindo-se de mim á maneira portuguesa , entregou-me uma folha de papel na qual tinha vindo a rabiscar durante o percurso até Tomar.
Juro que não posei para ela , mas não é por acaso que D foi agente da CIA.

sábado, 10 de março de 2012

Uma paz inventada

Olho para o meu jasmim em flor na varanda
Olhando o rio,
Azul, no seu esplendor;
E o branco inebriante do cheiro de memória do jasmim
atrás da tua orelha
nas ruas de Tunis;
De mãos dadas e de promessas nunca feitas.

Este cheiro a Primavera de sentidos e a esperança de amor...
Um dia andarei de mãos dadas contigo nas ruas de Cartago
entre este doce cheiro de jasmim e o denso azul mediterranico
sem que saibas que afinal,
era comigo que ias entrar no labirinto da vida com sabor a jasmim .

Afinal, nunca demos as mãos como dão os amantes e nunca fizemos promessas como ditam os corações.
Mas também, nunca estivemos em Tunis.

Por vezes, questiono-me se te conheço, realmente...
Mas, o jasmim relembra-me o cheiro que usavas atrás da orelha nas ruas de Cartago
 e consigo sentir o calor das tuas mãos cujo suor se confundia com o Mediterraneo;
e este azul do Tejo ...quando fecho os olhos é igualmente ofuscante e calmo.
Que te posso dizer , senão,  que não me lembro do teu sorriso nem da cor dos teus olhos ?

E desespero ainda mais quando me lembro do teu corpo envolto no meu como uma imagem emoldurada , mas já não sinto nada.
Os sentidos perderam a memória e só o jasmim trouxe algum devaneio sem rosto,
sem corpo
e sem identidade.
Uma paz de uma memória inventada, desejada e possivelmente 
Uma paz criada para poder ficar em paz.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sarando...sem querer

Tenho uma tristeza latente
que me decompõe a alma que abraço com tanto trupor.
Tenho memórias de mim como queria ser, 
como pensava que conseguiria amar sem amarras.
Afinal,   sem ter mestria nas emoções e
como num acidente do qual permaneço refém ,
lambo as feridas que tento sarar;
e a cada gota de sangue vejo o teu rosto, ainda....
que me dá náuseas e vontade de te agarrar.
Contradições , maldições e tantas outras confusões
que seriam simplesmente um vento do norte,
não fosses, estar tu, tão próximo e tão longe...


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Era uma vez o Ocidente....

Algo que tenho que partilhar convosco e sendo hoje, uma sexta-feira, 13...vamos poupar mais umas cabeças !
Traduzi do francês, um artigo do jornal alemão Stern de Hamburgo que achei curioso, vindo de quem vem..... :

" Há  cinco anos atrás o mundo parecia ser ainda o que julgavamos ser. Na cimeira dos G8 (organizada pela Alemanha em Junho 2007 nas margens  do mar Baltico) em Heiligendamm, os chefes do Estado americano , japonês , alemão , francês , britânico, italiano , canadiano e russo reuniam-se para se concertar a ordem do mundo. Mostravam-se em sofás de vime, emitiam um comunicado e prometiam fundos a Àfrica. Uma legião de jornalistas, de manifestantes e de policias rodopiavam á volta destes. Nada deixava parecer que esta cimeira assinava o fim de uma época.
 No Outono do ano seguinte, o desmoronamento da banca Lehman Brothers marcava o inicio da crise financeira que dissipou milhares de dolares pelo mundo, mas que sobretudo acelarou prodigiosamente uma tendência já sensivel : o declinio do Ocidente e a subida em peso do resto do mundo. Doravante, desde que os grandes chefes de Estado se concertem, já não são sete ou oito, mas mais de vinte como em Cannes em Novembro de 2011. E já não são as potências europeias e os Estados-Unidos que dão a lição á Àsia ou á América Latina, mas o inverso. A China preocupa-se com a dívida Americana, a presidente brasileira ( Dilma Rousseff) exige da Europa que esta mostre a sua " vontade politica", o governo da banca central indiana (Duvvuri Subbarao) pede-lhe que tome decisões dificeis, e mesmo a Africa do Sul pergunta-lhe mesmo se  não deveria comprar obrigações europeias para apoiar o Velho Continente.


A ascenção da Europa começou no sec. XV, mas é só com a revolução industrial, no incio do sec XX que ela acelarou. Até então os centros do mundo eram noutro lado : por volta do ano mil, os cientistas árabes estavam muito avançados em relação aos do Norte.
A China tem cidades com mais de 1 mlhão de habitantes desde o sec.IX. Há mais de um meio seculo antes de Cristovão Colombo, o almirante Zheng He explorava as costas de Àfrica e da Península Arábica e face á sua frota impunente, as caravelas* do nosso explorador genovês daria ares de  débeis esquivos .


A racionalização do pensamento que caracterizou as Luzes foi determinante para a ascenção da Europa : as gerações futuras não deveriam gozar de uma melhor existência pela graça divina, mas graça ás novas ideias que se tinham imposto. Quando em 1897 , a rainha Victória celebrou o seu jubileu de diamante ( 60º aniversário do seu reinado), ela tinha um quarto da população mundial entre os seus subditos. No sec. XX, os Estados-Unidos tornaram.se a primeira potência do mundo e a hegemonia mundial permaneceu ocidental.
Para nós, esta ordem do mundo é quase uma lei da natureza. É quase  a conclusão da história da humanidade: á estação vertical e á domesticação do fogo, secederam-se o desenvolvimento da escritura, o dominio das forças da natureza, a ruína das ideologias totalitárias. E uma sociedade democrática formou-se ,que certamente sofreu contrariedades, mas que possui um poder de atração que mais nenhum modelo a pode suplantar. No incio dos anos 90, na euforia da victória sobre o campo comunista, o filósofo (americano de origem japonesa) Francis Fukuyama, fantasiava mesmo sobre o " fim da história". Cada filial de McDonalds que abria na China ou na Russia pareciam ser a prova.
E, no entanto, se é uma verdade banal, a história não acaba. A era ocidental chega ao final. Os países "emergentes" contribuem já tanto para a produção mundial como os G7. E vão-nos brevemente suplantar. A China é , na história, o primeiro país a indicar taxas de crescimento tão elevadas durante tantos anos a fio. Em 2027, ou mesmo antes, poderá vir a ser a primeira potência económica mundial.


A ascenção da China representa un desafio ideológico para o ocidente. A noção de " modernidade" já não é automaticamente associada aos valores como a liberdade de opinião. Pequim mostra que o triunfo económico não leva necessariamente a um reforço da democracia. Este modelo inquieta-nos - em África muitos Estados estão seriamente tentados a acertar o passo com os chineses , mais do que continuarem a deixar o Ocidente  dar a sua lição sobre a questão dos direitos do homem.
O que há a dizer para nós , ocidentais?
Nós cremos que a nossa visão do mundo é absoluta , intemporal. Nós consideramos a tolerância, por exemplo, como uma invenção ocidental dos tempos modernos, então que na Época Medieval os muçulmanos que dominavam a península Ibérica autorisavam a liberdade de culto, mais do que os seus vizinhos cristãos. A sombra que fazemos obscurece a nossa visão do futuro. Escutamos as informações internacionais na Deutschlandfunk ( radio publica alemã) ou na BBC e igoramos  que em vastas regiões do mundo os canais Al-Jazira, NDTV (sediada em Nova-Deli) e CCTV ( em Pequim) dão o tom. Cremos que a ordem ocidental é a mais justa - e não nos questionamos se não será preferível que a China, que representa 20% da população mundial,  domine o mundo em vez dos Estados-Unidos.


""É um paradoxo, escreve o historiador Paul Cohen. Os Ocidentais, que mais do que alguém contribuiram na criação do mundo moderno são exactamente os mesmos a não o compreenderem.""


Um dia, acordaremos e apercebere-mo-nos que o mundo se transformou noutro. Até lá podemos ainda manter os olhos fechados algum tempo. Ou podemos nos preparar.
Marc Goergen
* individamente utilizado como embarcação genovesa...talvez na pretenção de dar um valor de supremacia na navegação, normalmente atribuida aos portugueses :-)