quarta-feira, 11 de julho de 2012

Revisitando Mr. 5%

Hoje o meu percurso em trabalho levou-me a uma visita especial ao museu Calouste Gulbenkian. Cerca de 200 Arménios espalhados pelo mundo inteiro e chegados á gare marítima de Alcântara tinham como desejo visitar o museu que este sr. de origem Arménia deixou a Portugal após sua morte.

A história deste ilustre mecenas e coleccionador de arte é pouco conhecida no nosso país,mas também nos países por onde viveu : Inglaterra, França e Egipto.
Nascido na parte oriental de Istambul, Gulbenkian, oriundo de uma ilustre família Arménia que remonta ao séc.IV acabou os seus últimos dias em Lisboa onde o sabor a calma e plenitude lhe enalteceram a vontade de aqui deixar uma fundação com fins educacionais , filantrópos e científicos.

Desde muito cedo começou a coleccionar arte e é na sala dos medalhões de Aboukir e moedas gregas e romanas onde nos damos conta das suas primeiras peças de colecção.
 Porém, é na sala dedicada ao Egipto que nos deparamos com a selecção apurada e distinta dos artigos meticulosamente escolhidos por Howard Carter, egiptólogo responsável pela descoberta do túmulo fechado de Tutankamen e marchand de Gulbenkian.
Não é da exposição que vos quero falar, pois de tão ecléctica requere tempo e texto que não poderia dispor.
É da vida deste homem que seguindo os estudos de engenharia e ciências aplicadas foi o pioneiro nos projectos de extracção de petróleo no médio-oriente e também arquitecto financeiro para encontrar os parceiros mais correctos para assegurarem o financiamento deste projecto tão inovador no inicio do séc.XX.
Não só conseguiu a confiança de investidores como a Shell, Banco da Turquia e Deutsch Bank e British Petroleum, mas também com esta atitude conseguiu afastar o interesse algo obsessivo dos alemães em se estabelecerem a solo neste território que detinha então a maior reserva de petróleo do mundo.

Toda a sua biografia que é apaixonante pode ser agora lida graças a uma nova edição com prefácio do seu neto Michael Essayan.
E aqui fica um vídeo que poderá abrir o apetite para conhecerem um homem que tanto amou Lisboa e que tanto nos deixou ... pelo seu neto.



segunda-feira, 9 de julho de 2012

Palavras e rostos

Tanto que gostaria de ter partilhado todas as experiências que tive nestes últimos dois meses em que nem abri o meu blogue...
Cada cliente, um mundo e cada mundo tão diferente do meu...
E cada história contada a cada um...cada reacção, uma reinvenção da história.
O tempo foi passando sem que pudesse estar com os amigos para partilhar o que mais há de belo nesta passagem consciente pela realidade.
E agora que tudo já parece longínquo,
Agora que me parece descabido contar o que me deu brilho àqueles dias em que estava privada da minha vida privada,
questiono-me:
Será que esta profissão em que tanto me envolvo não me rouba o que de mais tenho de precioso ?
Onde fica o tempo para os queridos ?
Serão ainda tão próximos se continuar tão distante ?
Repenso uma linha ténue entre o prazer de "guiar" e o aconchego da minha intimidade...
E ficam rostos e momentos ...que já fazem parte de um passado.
Amo-vos !



                                      Happy moments !!!!
































domingo, 6 de maio de 2012

Uma série de eventos pouco prováveis - II- Pug - de Mercúrio

Com a agente D aprendi que era importante fazer uma investigação linear do perfil dos clientes com quem vamos trabalhar por algum tempo , nem que seja um só dia.
 A inteligência emocional é cada vez mais necessária para a captação de atenção do cliente em relação ao que queremos que seja importante durante a sua visita e conhecendo um pouco do mundo do cliente poderemos partir á conquista dos seus interesses e introduzir a realidade portuguesa como parte de um deles.

Pug é uma raça canina conhecida pela sua aptidão algo teimosa de não largar a presa. De focinho achatado,  corpo maciço e pequeno , pode designar-se como um cão que pode dar alguns problemas se bem treinado.
O meu cliente, também assim cognominado, não tinha ar de ter dado ou vir a dar algum problema ; mas quem sou eu para saber julgar carácteres...

E, como logo no primeiro dia me apaixonei pelo facto deste senhor deter vastos conhecimentos  da nossa cultura e história, esqueci-me de sondar o seu nome no grande motor de busca da nossa era.


Ao terceiro dia por ainda não ter obtido nenhuma confirmação conclusiva da sua formação ou profissão, agarrei-me ao email da empresa que Pug oficiosamente me tinha cedido como sendo a sua para nos comunicarmos em viagem se necessário.
E mesmo para quem não é religiosa,exclamei :
- Jesus ! - claro está , influenciada pela proximidade com a agente D.


Após ter descoberto que o meu cliente tinha sido o responsável pelo golpe financeiro da Enron que ajudou nessa altura a empresa petrolífera de Bush... não sabia como é que o iria encarar no dia seguinte. Muitas outras coisas não tão melhores ficam por dizer ,mas todas elas vêem bem explicitas na página da International Corruption Org. e com a sua foto bem vísivel para que como sempre, eu não pudesse contornar este perfil sob pena de cair na tentação de pensar na possibilidade de existirem dois homens com o mesmo nome e assim , desresponsabilizá-lo.


A semana decorreu muito intensamente, pois acima de tudo, Pug é um homem-renascença , humanista e ex-reitor de Harvard - destituído aquando do escândalo financeiro que levou a Enron á falência.

A sua esposa, Dee, designada pelos norte americanos como tipo Alfa ( capacidades de leader e carácter dominador ) desvendava progressivamente um Pug generoso, justo e resignado ao ditado : "what goes around comes around ". 
Nas suas longas divagações sobre o grande Oriente não faltavam referências ao protocolo do governo a que se tiveram que sujeitar e que muito já diziam sobre a facção republicana. 

E foi com o Oriente que começámos a programar uma possível viagem a Kerala e a Burma.
Pug, ouvia e sabia que estava excluído destes planos futuros e são nestes momentos de cumplicidade e de partilha que os momentos ficam associados a histórias , lugares,  odores e sabores ; como nessa tarde de Abril na Foz do Porto com uma forte envolvente a iodo e a café onde discretamente tirei uma foto a um homem que não pensei vir a ter o mínimo de simpatia.

Os seus conhecimentos históricos eram vastíssimos e a sua neutralidade religiosa, embora judeu de origem, era admirável.
Pragmático e com sentido de humor, Pug fez-me uma pergunta que lhe valeu a minha admiração incondicional :
- No séc.15, assim como os portugueses andavam a delinear a costa Africana também andavam os chineses com as suas embarcações bem preparadas e com homens tão meticulosos em matemáticas como os árabes. A sorte dos portugueses foi essa dinastia chinesa não estar interessada em colonizar terra , senão que língua se falaria hoje em Portugal ?


Adoro reptos culturais para os quais as respostas são como a imaginação :  do tamanho do nosso universo !


domingo, 29 de abril de 2012

Uma série de eventos pouco prováveis - I - A Sra. de Marte

Quase todos os amantes de filmes e de literatura de suspense gostariam pelo menos uma vez na vida de terem privado com um agente da CIA ou qualquer outro membro participante de uma organização de serviços secretos, não ?
 Finalmente, tive a minha oportunidade, mas como prestadora de serviços de guia-intérprete no meu país não pude abusar do meu tempo limitado a questões ao cliente, mas D foi a agente mais "sui generis" que já alguma vez imaginei poder existir nesse meio.

 D de estatura alta e fina poderia passar por um homem quando usava a sua longa gabardina e o seu chapéu onde enrolava o longo cabelo negro para cuidadosamente o proteger da chuva miudinha.
Distraída, passo largo e descuidado e constantemente a metralhar instantes com a sua Nikon profissional, D faz parte de um grupo de viajantes que trabalha com a National Geographic .


Enquanto lhe falava da praia do Restelo e da placa tectónica sob Lisboa , D sorria e perguntava se normalmente se viam submarinos no Tejo. Eu sorria e respondia-lhe que desde a "neutralidade" politica portuguesa durante a II G.G.M. tínhamos começado a avistá-los ao longo da costa portuguesa e também no Tejo e desde então, até tínhamos investido recentemente na compra de mais alguns , pois na altura da visita dos primeiros submarinos alemães e americanos ainda não tínhamos nenhuns ; e ficámos sempre com a ideia de poder investir nessas embarcações tão importantes para o desenvolvimento cientifico...
O gelo quebrou-se com a gargalhada de ambas e a proposta seguinte foi o pastel mais famoso de Portugal, o de Belém.

Quando lhe contei que os monges que anteriormente tinham vivido no mosteiro dos Jerónimos se tinham dedicado ao fabrico destes famosos pastéis, D concordou que a melhor aptidão dos monges era sem dúvida a doçaria.
E foi durante esse momento gourmet que D confessou o seu estatuto civil de reformada, embora com 50 anos , mas por ter sido agente da CIA que como a variante de stress na sua vida profissional lhe valeu uma reforma antecipada.


Foi aqui que entrou um dos meus actores favoritos em cena : John Cleese - aparentemente a CIA vai buscar os personagens mais díspares para organizarem formações de pessoal onde  entre muitos outros citados foi :  um dos membros dos Monty Pythons.

Dedicou-se á cultura vinícola e sobretudo á produção de um vinho pelo qual se apaixonou - o Alvarinho ! E decidiu voltar a Portugal para rever o país de onde é original uma das suas várias paixões.


Deliciei-me com as várias histórias de D enquanto nos dirigíamos para Tomar para visitar a sede dos Templários  de quem, surpreendentemente, D nunca tinha ouvido falar.

E como quem conta um conto ... pode acrescentar mais outro conto, ensinei-lhe que aqui em Portugal a sexta-feira 13 não é dia de azar, pois o nosso rei D.Dinis não ordenou a crueldade vinda de Avignon para erradicarem da Europa essa distinta ordem dos Templários que para além de serem nobres e sábios, também emprestavam dinheiro.
- Jesus!!!! - Disse D.
Acho que percebeu tudo!

E despedindo-se de mim á maneira portuguesa , entregou-me uma folha de papel na qual tinha vindo a rabiscar durante o percurso até Tomar.
Juro que não posei para ela , mas não é por acaso que D foi agente da CIA.

sábado, 10 de março de 2012

Uma paz inventada

Olho para o meu jasmim em flor na varanda
Olhando o rio,
Azul, no seu esplendor;
E o branco inebriante do cheiro de memória do jasmim
atrás da tua orelha
nas ruas de Tunis;
De mãos dadas e de promessas nunca feitas.

Este cheiro a Primavera de sentidos e a esperança de amor...
Um dia andarei de mãos dadas contigo nas ruas de Cartago
entre este doce cheiro de jasmim e o denso azul mediterranico
sem que saibas que afinal,
era comigo que ias entrar no labirinto da vida com sabor a jasmim .

Afinal, nunca demos as mãos como dão os amantes e nunca fizemos promessas como ditam os corações.
Mas também, nunca estivemos em Tunis.

Por vezes, questiono-me se te conheço, realmente...
Mas, o jasmim relembra-me o cheiro que usavas atrás da orelha nas ruas de Cartago
 e consigo sentir o calor das tuas mãos cujo suor se confundia com o Mediterraneo;
e este azul do Tejo ...quando fecho os olhos é igualmente ofuscante e calmo.
Que te posso dizer , senão,  que não me lembro do teu sorriso nem da cor dos teus olhos ?

E desespero ainda mais quando me lembro do teu corpo envolto no meu como uma imagem emoldurada , mas já não sinto nada.
Os sentidos perderam a memória e só o jasmim trouxe algum devaneio sem rosto,
sem corpo
e sem identidade.
Uma paz de uma memória inventada, desejada e possivelmente 
Uma paz criada para poder ficar em paz.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sarando...sem querer

Tenho uma tristeza latente
que me decompõe a alma que abraço com tanto trupor.
Tenho memórias de mim como queria ser, 
como pensava que conseguiria amar sem amarras.
Afinal,   sem ter mestria nas emoções e
como num acidente do qual permaneço refém ,
lambo as feridas que tento sarar;
e a cada gota de sangue vejo o teu rosto, ainda....
que me dá náuseas e vontade de te agarrar.
Contradições , maldições e tantas outras confusões
que seriam simplesmente um vento do norte,
não fosses, estar tu, tão próximo e tão longe...


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Era uma vez o Ocidente....

Algo que tenho que partilhar convosco e sendo hoje, uma sexta-feira, 13...vamos poupar mais umas cabeças !
Traduzi do francês, um artigo do jornal alemão Stern de Hamburgo que achei curioso, vindo de quem vem..... :

" Há  cinco anos atrás o mundo parecia ser ainda o que julgavamos ser. Na cimeira dos G8 (organizada pela Alemanha em Junho 2007 nas margens  do mar Baltico) em Heiligendamm, os chefes do Estado americano , japonês , alemão , francês , britânico, italiano , canadiano e russo reuniam-se para se concertar a ordem do mundo. Mostravam-se em sofás de vime, emitiam um comunicado e prometiam fundos a Àfrica. Uma legião de jornalistas, de manifestantes e de policias rodopiavam á volta destes. Nada deixava parecer que esta cimeira assinava o fim de uma época.
 No Outono do ano seguinte, o desmoronamento da banca Lehman Brothers marcava o inicio da crise financeira que dissipou milhares de dolares pelo mundo, mas que sobretudo acelarou prodigiosamente uma tendência já sensivel : o declinio do Ocidente e a subida em peso do resto do mundo. Doravante, desde que os grandes chefes de Estado se concertem, já não são sete ou oito, mas mais de vinte como em Cannes em Novembro de 2011. E já não são as potências europeias e os Estados-Unidos que dão a lição á Àsia ou á América Latina, mas o inverso. A China preocupa-se com a dívida Americana, a presidente brasileira ( Dilma Rousseff) exige da Europa que esta mostre a sua " vontade politica", o governo da banca central indiana (Duvvuri Subbarao) pede-lhe que tome decisões dificeis, e mesmo a Africa do Sul pergunta-lhe mesmo se  não deveria comprar obrigações europeias para apoiar o Velho Continente.


A ascenção da Europa começou no sec. XV, mas é só com a revolução industrial, no incio do sec XX que ela acelarou. Até então os centros do mundo eram noutro lado : por volta do ano mil, os cientistas árabes estavam muito avançados em relação aos do Norte.
A China tem cidades com mais de 1 mlhão de habitantes desde o sec.IX. Há mais de um meio seculo antes de Cristovão Colombo, o almirante Zheng He explorava as costas de Àfrica e da Península Arábica e face á sua frota impunente, as caravelas* do nosso explorador genovês daria ares de  débeis esquivos .


A racionalização do pensamento que caracterizou as Luzes foi determinante para a ascenção da Europa : as gerações futuras não deveriam gozar de uma melhor existência pela graça divina, mas graça ás novas ideias que se tinham imposto. Quando em 1897 , a rainha Victória celebrou o seu jubileu de diamante ( 60º aniversário do seu reinado), ela tinha um quarto da população mundial entre os seus subditos. No sec. XX, os Estados-Unidos tornaram.se a primeira potência do mundo e a hegemonia mundial permaneceu ocidental.
Para nós, esta ordem do mundo é quase uma lei da natureza. É quase  a conclusão da história da humanidade: á estação vertical e á domesticação do fogo, secederam-se o desenvolvimento da escritura, o dominio das forças da natureza, a ruína das ideologias totalitárias. E uma sociedade democrática formou-se ,que certamente sofreu contrariedades, mas que possui um poder de atração que mais nenhum modelo a pode suplantar. No incio dos anos 90, na euforia da victória sobre o campo comunista, o filósofo (americano de origem japonesa) Francis Fukuyama, fantasiava mesmo sobre o " fim da história". Cada filial de McDonalds que abria na China ou na Russia pareciam ser a prova.
E, no entanto, se é uma verdade banal, a história não acaba. A era ocidental chega ao final. Os países "emergentes" contribuem já tanto para a produção mundial como os G7. E vão-nos brevemente suplantar. A China é , na história, o primeiro país a indicar taxas de crescimento tão elevadas durante tantos anos a fio. Em 2027, ou mesmo antes, poderá vir a ser a primeira potência económica mundial.


A ascenção da China representa un desafio ideológico para o ocidente. A noção de " modernidade" já não é automaticamente associada aos valores como a liberdade de opinião. Pequim mostra que o triunfo económico não leva necessariamente a um reforço da democracia. Este modelo inquieta-nos - em África muitos Estados estão seriamente tentados a acertar o passo com os chineses , mais do que continuarem a deixar o Ocidente  dar a sua lição sobre a questão dos direitos do homem.
O que há a dizer para nós , ocidentais?
Nós cremos que a nossa visão do mundo é absoluta , intemporal. Nós consideramos a tolerância, por exemplo, como uma invenção ocidental dos tempos modernos, então que na Época Medieval os muçulmanos que dominavam a península Ibérica autorisavam a liberdade de culto, mais do que os seus vizinhos cristãos. A sombra que fazemos obscurece a nossa visão do futuro. Escutamos as informações internacionais na Deutschlandfunk ( radio publica alemã) ou na BBC e igoramos  que em vastas regiões do mundo os canais Al-Jazira, NDTV (sediada em Nova-Deli) e CCTV ( em Pequim) dão o tom. Cremos que a ordem ocidental é a mais justa - e não nos questionamos se não será preferível que a China, que representa 20% da população mundial,  domine o mundo em vez dos Estados-Unidos.


""É um paradoxo, escreve o historiador Paul Cohen. Os Ocidentais, que mais do que alguém contribuiram na criação do mundo moderno são exactamente os mesmos a não o compreenderem.""


Um dia, acordaremos e apercebere-mo-nos que o mundo se transformou noutro. Até lá podemos ainda manter os olhos fechados algum tempo. Ou podemos nos preparar.
Marc Goergen
* individamente utilizado como embarcação genovesa...talvez na pretenção de dar um valor de supremacia na navegação, normalmente atribuida aos portugueses :-)