Quase todos os amantes de filmes e de literatura de suspense gostariam pelo menos uma vez na vida de terem privado com um agente da CIA ou qualquer outro membro participante de uma organização de serviços secretos, não ?
Finalmente, tive a minha oportunidade, mas como prestadora de serviços de guia-intérprete no meu país não pude abusar do meu tempo limitado a questões ao cliente, mas D foi a agente mais "sui generis" que já alguma vez imaginei poder existir nesse meio.
D de estatura alta e fina poderia passar por um homem quando usava a sua longa gabardina e o seu chapéu onde enrolava o longo cabelo negro para cuidadosamente o proteger da chuva miudinha.
Distraída, passo largo e descuidado e constantemente a metralhar instantes com a sua Nikon profissional, D faz parte de um grupo de viajantes que trabalha com a National Geographic .
Enquanto lhe falava da praia do Restelo e da placa tectónica sob Lisboa , D sorria e perguntava se normalmente se viam submarinos no Tejo. Eu sorria e respondia-lhe que desde a "neutralidade" politica portuguesa durante a II G.G.M. tínhamos começado a avistá-los ao longo da costa portuguesa e também no Tejo e desde então, até tínhamos investido recentemente na compra de mais alguns , pois na altura da visita dos primeiros submarinos alemães e americanos ainda não tínhamos nenhuns ; e ficámos sempre com a ideia de poder investir nessas embarcações tão importantes para o desenvolvimento cientifico...
O gelo quebrou-se com a gargalhada de ambas e a proposta seguinte foi o pastel mais famoso de Portugal, o de Belém.
Quando lhe contei que os monges que anteriormente tinham vivido no mosteiro dos Jerónimos se tinham dedicado ao fabrico destes famosos pastéis, D concordou que a melhor aptidão dos monges era sem dúvida a doçaria.
E foi durante esse momento gourmet que D confessou o seu estatuto civil de reformada, embora com 50 anos , mas por ter sido agente da CIA que como a variante de stress na sua vida profissional lhe valeu uma reforma antecipada.
Foi aqui que entrou um dos meus actores favoritos em cena : John Cleese - aparentemente a CIA vai buscar os personagens mais díspares para organizarem formações de pessoal onde entre muitos outros citados foi : um dos membros dos Monty Pythons.
Dedicou-se á cultura vinícola e sobretudo á produção de um vinho pelo qual se apaixonou - o Alvarinho ! E decidiu voltar a Portugal para rever o país de onde é original uma das suas várias paixões.
Deliciei-me com as várias histórias de D enquanto nos dirigíamos para Tomar para visitar a sede dos Templários de quem, surpreendentemente, D nunca tinha ouvido falar.
E como quem conta um conto ... pode acrescentar mais outro conto, ensinei-lhe que aqui em Portugal a sexta-feira 13 não é dia de azar, pois o nosso rei D.Dinis não ordenou a crueldade vinda de Avignon para erradicarem da Europa essa distinta ordem dos Templários que para além de serem nobres e sábios, também emprestavam dinheiro.
- Jesus!!!! - Disse D.
Acho que percebeu tudo!
E despedindo-se de mim á maneira portuguesa , entregou-me uma folha de papel na qual tinha vindo a rabiscar durante o percurso até Tomar.
Juro que não posei para ela , mas não é por acaso que D foi agente da CIA.
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domingo, 29 de abril de 2012
quinta-feira, 2 de julho de 2009
ARLES , estória de paixão em pedra
Segui o guia local de Arles que se ocuparia de nos mostrar toda a história e património de uma cidade tranquila, esquecida e mantida deliciosamente nas suas várias épocas áureas.
Se houvesse musica para acompanhar esta visita, seria o Stabat Matter de Pergollesi conduzido por René Jacobs, que passei a assobiar timidamente.
Roma está no coração da cidade e por muito que queiramos sair da latinidade sobrevivida ás intervenções de recuperação integral ou "face lifting"......não podemos.
Sentimos que estamos algures no sul do mundo romano onde a pedra se impunha aos oradores, a forma ao Rhône , e o ocre do calcário ás cores das janelas venezianas.
Não há romance que consiga transmitir o sentimento de êxtase emocional perante toda esta megalomania arquitectural.
As cigarras tocam estimuladas a pilhas á volta do teatro romano ; o rio é calmo e não se altera ; o ar é limpo e deixa espaço a uma luz rarefeita.
Seria esta a luz a mesma da decadência de Roma Ocidental ?
A conversa na mesa ao lado, escutada inadvertidamente transporta-me para um universo cultural gigantesco que pode ser contido e guardado secretamente na esplanada da Praça Henri de Bornier. O actual director de arte do Louvre, aprazível figura Aquilina de descendência Italiana cede um final de tarde quente a 2 jornalistas Americanos ,entre uma taça de vinho e uma tábua de queijos.
Robert Doisneau esteve aqui e deixou algum do seu legado a uma escola superior de fotografia.
Van Gogh, aqui viveu a sua breve experiência de artista e de homem apaixonado e aqui morreu.
É bom sentir-me "fisicamente "próxima de duas figuras que tanto contribuem para o meu bem-estar. Sobretudo estar próximo dos mesmos lugares onde sei que estes se emocionaram e extroverteram esse alter-ego que ainda sopra nas brisas através de ruas tortuosas e labirinticas deste aglomerado de passagens históricas.
O algodão passa rente e cola-se a alguma humidade que existia para nos relembrar que as cidades nasceram do campo; essa paisagem que apela o homem a construir algo que pretensiosamente o impele a criar algo que pode vir a ser comparado como obra soprada pelo génio de Deus.
Não é inócuo o facto de um idioma ser um vinculo emocional que retrata a essência de um povo.
Não sei em que língua me expressar quando aqui estou.
O português sinto-o visceralmente assim como o francês por sinergia ; o inglês poderia cortar a poesia emocional contida nas várias vísceras enaltecendo o pragmatismo narrativo ; e o italiano manipularia a forma.
Escolhi o português e sinto a estranheza de soar a estrangeiro neste vasto mundo sensorial.
Hoje digo : " Long live the epicuristic!"
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