terça-feira, 16 de julho de 2013
domingo, 14 de julho de 2013
Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.
Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a supensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão - é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.
Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
- É com as vozes que o silêncio ganha.
Herberto Helder in Ou o poema contínuo
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Vem viver comigo, sê o meu amor E alguns novos prazeres provaremos
De areias douradas e regatos de cristal
Com linhas de seda e anzóis de prata.
Aí o rio correrá murmurando, aquecido
Mais por teus olhos do que pelo sol;
E aí os peixes enamorados ficarão
Suplicando a si próprios poder trair.
Quando tu nadares nesse banho de vida
Cada peixe, dos que todos os canais possuem,
Nadará amorosamente para ti,
Mais feliz por te apanhar, que tu a ele.
Deixa que outros gelem com canas de pesca
E cortem as suas pernas em conchas e algas;
Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes
Com engodos sufocantes, ou redes de calado.
Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso
Arranquem os cardumes acamados em baixios;
Ou que traidores curiosos, com moscas de seda
Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes,
Porque tu não precisas de tais enganos,
Pois que tu própria és a tua própria isca,
E o peixe que não seja por ti apanhado,
Ah!, é muito mais sensato do que eu.
John Donne, in "Poemas Eróticos"
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Missiva tecida em lã de Carneiro
" Somos seres que conhecem, querem e amam, e a partir do momento em que damos atenção aos objectos do conhecimento, da vontade e do amor, reconhecemos com evidência que não existe nenhum que não seja impossível. Apenas a ilusão pode ocultar esta evidência. A consciência desta impossibilidade obriga-nos a desejar continuamente prender o que não se pode prender através de tudo o que desejamos, conhecemos e queremos.
Quando qualquer coisa parece impossível de obter, seja qual for o esforço que façamos, isso indica um limite intransponível a esse nível e a necessidade de uma mudança de nível, de uma ruptura do tecto. Consumir-se em esforços a esse nível degrada. Mais vale aceitar o limite, contemplá-lo e saborear-lhe a amargura."
Simone Weil
Evitando o mal, evita-se a desilusão.
Evitar-te vai ser a minha constante:
MOI
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Dedicatória ao Francisco ...
" A extrema infelicidade que se apodera dos seres humanos não cria a desgraça humana, apenas a revela.
O pecado e os encantos da força. Pelo facto de a alma não saber reconhecer e aceitar a desgraça humana, acreditamos que existe diferença entre os seres humanos, e por isso faltamos á justiça, seja porque estabelecemos uma diferença entre nós e os outros, seja porque preferimos certas pessoas a outras.
Tal decorre do facto de não sabermos que a desgraça humana é uma quantidade constante e irredutível, tão grande quanto, em cada homem , pode ser, e que essa grandeza vem de um único Deus, de modo que existe semelhança entre um e outro homem ".
Simone weil
Esta é uma dedicatória a alguém que pretende ser crente e temer a Deus ...mas que no fundo só aparenta ser, não crê nem teme a Deus.
Por todos os exemplos que conheço como este, não quero fazer parte da carneirada....
O pecado e os encantos da força. Pelo facto de a alma não saber reconhecer e aceitar a desgraça humana, acreditamos que existe diferença entre os seres humanos, e por isso faltamos á justiça, seja porque estabelecemos uma diferença entre nós e os outros, seja porque preferimos certas pessoas a outras.
Tal decorre do facto de não sabermos que a desgraça humana é uma quantidade constante e irredutível, tão grande quanto, em cada homem , pode ser, e que essa grandeza vem de um único Deus, de modo que existe semelhança entre um e outro homem ".
Simone weil
Esta é uma dedicatória a alguém que pretende ser crente e temer a Deus ...mas que no fundo só aparenta ser, não crê nem teme a Deus.
Por todos os exemplos que conheço como este, não quero fazer parte da carneirada....
sábado, 8 de junho de 2013
Contando Carneiros....
"Aquilo que é essencialmente diferente do mal, é a virtude acompanhada de uma percepção distinta da possibilidade do mal , e do mal apresentando-se como um bem. A presença de ilusões abandonadas, mas presentes no pensamento, constitui, provavelmente , o critério da verdade." Simone Weil

As minhas ilusões a que te referes, eram a minha verdade ou a supremacia do bem ao mal .
O cerne da tua ilusão era a luxúria que podia ter todos os rostos e corpos que imaginavas de olhos fechados enquanto me deixavas amar-te languidamente.
"Só podemos ter horror de fazer mal a alguém quando nos encontramos no ponto onde esse alguém já não pode fazer-nos mal (amamos então os outros, no limite, como a nós próprios promovidos)." Simone Weil
Todo mal que temes de mim é o conhecimento que tenho de ti.
Só poderás ser tu tal como temes ser quando eu te aceitava na tua mentira de mancha humana. E dessa, tenho as mãos enrugadas de tanto tentar moldá-la em verdade.
Temo não querer
querer mais, mas nesta inércia emocional,
não existem perigos mais fortes do que a solidão.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Como um manto de carneiro
Não deveria escrever sobre a lua como sempre o fiz.
Está lá fora, enorme, ávida por ser apreciada.
Não posso sair do quarto; não posso olhá-la de olhos lavados em ti.
Lua, que sempre me incentivaste a cultivá-lo,
arranca este pedaço dele que se me agarrou ás vísceras,
pois de mim já não inflamam ardores,
nem gemem dores de esperança.
Pari o monstro que fui alimentando,
comi o prenúncio de futuro carregado de mentiras
e matei a libertinagem com verniz que estalou.
São assim as minhas mãos ao luar...
vazias de ti
e do teu sabor a falso.
Hoje, há uma lua que se encheu deste meu vazio.
Está lá fora, enorme, ávida por ser apreciada.
Não posso sair do quarto; não posso olhá-la de olhos lavados em ti.
Lua, que sempre me incentivaste a cultivá-lo,
arranca este pedaço dele que se me agarrou ás vísceras,
pois de mim já não inflamam ardores,
nem gemem dores de esperança.
Pari o monstro que fui alimentando,
comi o prenúncio de futuro carregado de mentiras
e matei a libertinagem com verniz que estalou.
São assim as minhas mãos ao luar...
vazias de ti
e do teu sabor a falso.
Hoje, há uma lua que se encheu deste meu vazio.
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