domingo, 14 de julho de 2013


Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.

Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,

as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas

e o mover dos dedos
e a supensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão - é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.
Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
- É com as vozes que o silêncio ganha.


Herberto Helder in Ou o poema contínuo

sexta-feira, 12 de julho de 2013


Vem viver comigo, sê o meu amor
E alguns novos prazeres provaremos
De areias douradas e regatos de cristal
Com linhas de seda e anzóis de prata.

Aí o rio correrá murmurando, aquecido

Mais por teus olhos do que pelo sol;
E aí os peixes enamorados ficarão
Suplicando a si próprios poder trair.

Quando tu nadares nesse banho de vida

Cada peixe, dos que todos os canais possuem,
Nadará amorosamente para ti,
Mais feliz por te apanhar, que tu a ele.

Deixa que outros gelem com canas de pesca

E cortem as suas pernas em conchas e algas;
Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes
Com engodos sufocantes, ou redes de calado.

Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso

Arranquem os cardumes acamados em baixios;
Ou que traidores curiosos, com moscas de seda
Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes,

Porque tu não precisas de tais enganos,

Pois que tu própria és a tua própria isca,
E o peixe que não seja por ti apanhado,
Ah!, é muito mais sensato do que eu.

John Donne, in "Poemas Eróticos"

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Missiva tecida em lã de Carneiro


" Somos seres que conhecem, querem e amam, e a partir do momento em que damos atenção aos objectos do conhecimento, da vontade e do amor, reconhecemos com evidência que não existe nenhum que não seja impossível. Apenas a ilusão pode ocultar esta evidência. A consciência desta impossibilidade obriga-nos a desejar continuamente prender o que não se pode prender através de tudo o que desejamos, conhecemos e queremos.

Quando qualquer coisa parece impossível de obter, seja qual for o esforço que façamos, isso indica um limite intransponível a esse nível e a necessidade de uma mudança de nível, de uma ruptura  do tecto. Consumir-se em esforços a esse nível degrada. Mais vale aceitar o limite, contemplá-lo e saborear-lhe a amargura."
Simone Weil




  Na desilusão não existem surpresas ligeiras . Existem impactos complicados de entender.
 Evitando o mal, evita-se a desilusão.
 Evitar-te vai ser a minha constante:
MOI



 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Dedicatória ao Francisco ...

" A extrema infelicidade que se apodera dos seres humanos não cria a desgraça humana, apenas a revela.
 O pecado e os encantos da força. Pelo facto de a alma não saber reconhecer e aceitar a desgraça humana, acreditamos que existe diferença entre os seres humanos, e por isso faltamos á justiça, seja porque estabelecemos uma diferença entre nós e os outros, seja porque preferimos certas pessoas a outras.
Tal decorre do facto de não sabermos que a desgraça humana é uma quantidade constante e irredutível, tão grande quanto, em cada homem , pode ser, e que essa grandeza vem de um único Deus, de modo que existe semelhança entre um e outro homem ".
Simone weil

Esta é uma dedicatória a alguém que pretende ser crente e temer a Deus ...mas que no fundo só aparenta ser, não crê  nem teme a Deus.
Por todos os exemplos que conheço como este, não quero fazer parte da carneirada....

sábado, 8 de junho de 2013

Contando Carneiros....





"Aquilo que é essencialmente diferente do mal, é a virtude acompanhada de uma percepção distinta da possibilidade do mal , e do mal apresentando-se como um bem. A presença de ilusões abandonadas, mas presentes no pensamento, constitui, provavelmente , o critério da verdade." Simone Weil




















 As minhas ilusões a que te referes, eram a minha verdade ou a supremacia do bem ao mal .
 O cerne da tua ilusão era a luxúria que podia ter todos os rostos e corpos que imaginavas de olhos fechados enquanto me deixavas amar-te languidamente.

"Só podemos ter horror de fazer mal a alguém quando nos encontramos no ponto onde esse alguém já não pode fazer-nos mal (amamos então os outros, no limite, como a nós próprios promovidos)."   Simone Weil

Todo mal que temes de mim é o conhecimento que tenho de ti.
Só poderás ser tu tal como temes ser quando eu te aceitava na tua mentira de mancha humana. E dessa, tenho as mãos enrugadas de tanto tentar moldá-la em verdade.
Temo não querer 
querer mais, mas nesta inércia emocional,
 não existem perigos mais fortes do que a solidão.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Como um manto de carneiro

Não deveria escrever sobre a lua como sempre o fiz.
Está lá fora, enorme, ávida por ser apreciada.
Não posso sair do quarto; não posso olhá-la de olhos lavados em ti.

Lua, que sempre me incentivaste a cultivá-lo,
arranca este pedaço dele que se me agarrou ás vísceras,
pois de mim já não inflamam ardores,
nem gemem dores de esperança.
Pari o monstro que fui alimentando,
comi o prenúncio de futuro carregado de mentiras
e matei a libertinagem com verniz que estalou.
São assim as minhas mãos ao luar...
vazias de ti
e do teu sabor a falso.
Hoje, há uma lua que se encheu deste meu vazio. 


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A cítara que encantou



Ontem , 12-12-12 ,passei o dia a ler mensagens referentes á importância da numerologia no calendário Gregoriano e passou-me completamente despercebida a morte de Ravi Shankar enquanto ouvia pela manhã  as suas composições e concertos com a orquestra de Londres como se de um revivalismo se tratasse.

A cítara é sem dúvida um instrumento que me agradou desde criança; muito pela sua harmonia e delicadeza de tonalidades , mas também pelos ambientes sugeridos pelos seus intérpretes.
Assim como o qwaali , canto religioso da Índia muçulmana, as ragas têm o fascinante poder de exultarem emoções e estados de espírito que vão para além do real ... praticamente criando plataformas reais para atingir o intangível.

Para quem não está familiarizado com este tipo de música, aqui ficam duas composições que me agradam bastante: uma pelo Ravi Shankar + Philip Glass e outra por  L. Shankar que contribuiu para a banda sonora de um grande filme de Martin Scorcese : "A última tentação de Cristo " que fez as minhas delícias melomanas nos anos 80 e até hoje.

 
 It stars Willem Dafoe as Jesus Christ, Harvey Keitel as Judas Iscariot, Barbara Hershey as Mary Magdalene, David Bowie as Pontius Pilate, and Harry Dean Stanton as Paul. The film was shot entirely in Morocco.
Like the novel, the film depicts the life of Jesus Christ and his struggle with various forms of temptation including fear, doubt, depression, reluctance and lust. This results in the book and film depicting Christ being tempted by imagining himself engaged in sexual activities, a notion that has caused outrage from some Christians. The movie includes a disclaimer explaining that it departs from the commonly accepted Biblical portrayal of Jesus' life, and is not based on the Gospels.

E, que tão poderoso e intenso quanto o olhar deste senhor ?
Só mesmo a sua música !
R.I.P.