segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O correio não toca duas vezes


O amor quando chegou
Não veio com aviso de recepção;
Entrou, momento após outro e mais outro
E foi cimentando-se de gestos e palavras que não eram pensados.
E foi encontrando camas onde foram acesas centelhas;
E foi através do desejo em crescendo que se consumia;
E foi com as tuas escassas palavras que cresceu em mim;
E é com o teu rosto de gaiato
Aberto num sorriso
Que ele tem forma.
E ele és tu...em mim.
  
Centelha = Partícula luminosa que ressalta de um corpo incandescente. Luz viva que brota do choque de dois corpos duros ou de um corpo electrizado. Faísca.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Pós de Bárbaros

Quase me esqueci de guardar o cheiro dos campos de Albarraque ao final do dia,
vagueando como fazia
no meu mundo solitário de criança.

Quase, e enquanto me entregava a ti...a esses cheiros voltava,
tal a liberdade de ser feliz sozinha,
mesmo que a dois, nesse instante.
E quase, nessa liberdade desenfreada de amar o mar que jorrava do teu desejo,
me afogava,
no meu desejo por ti.

Distâncias de braçadas intermináveis nos mares do Algarve,
risadas a lágrimas nas areias quentes do Meco,
ronronares dos meus gatos elegantemente aninhados no meu colo
e as faustosas refeições no alpendre da casa isolada na Costa Alentejana...
tantos sabores, odores de felicidade gravados no meu olhar,
esse mesmo, que de vez em quando olhas,
sem saberes o que quer dizer
quando te fixo...
só na esperança de poder guardar o teu olhar como :
o mar, o campo, o riso e o alpendre da minha casa...
onde não queres entrar.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Esqueci-me de mim, enquanto buscava o prazer contigo.
 
Esqueci-me de te dizer que:
sou especial....  se  não reparaste;
que sei que não sentes... para não vires a sofrer.
Esqueci-me que amar dói....mas sem amor não sei viver.
Esqueço-me que tens de merecer este amor... mesmo que nada te cobre por ele.
E esqueço-me sempre de me esquecer um pouco de ti.
Esqueceste que não tens mais ninguém que te ame assim... como eu... a dois.
Esqueceste, simplesmente de te deixar levar pelo amor;
de apreciares o seu sabor,
o seu valor.

Um dia destes vou esquecer-me de ti...
E nesse dia... não te vais mais esquecer de mim !

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Existem castas e chão que já deu uvas.....

Hoje quando abri o Diário de Negócios deparei-me com um artigo do Leonel Moura, artista da nossa praça e individuo que tinha com alguma erudição - e para quem seja mais distraído, o Leonel foi quem fez as instalações das oliveiras em bancos de plástico á beira Tejo de que tanto gostei.

Na sua viagem a Bombaim, Leonel estava chocado com a miséria que havia ao seu redor e logo á esquina do famoso hotel onde ficara hospedado : Taj Mahal. 
Insistiu em revelar as estatísticas de quantos dormiam em grupo na rua , sós ao relento e finalmente os que tinham um telhado...16% da população de Bombaim.

A mim , estes relatos já não me chocam por saber que a religião hindu com o seu complicado e hierárquico sistema de castas segregam desde a nascença a população Indiana e por ser uma democracia politica e não religiosa....um factor é subalterno ao outro e não há grande coisa a fazer.

Os Indianos são os próprios a acatarem essa decisão" imposta" pelo divino e como tal sorriem e nunca parecem descontentes, nem quando mendigam.

Pois, é Leonel, a miséria é realmente algo que vem de dentro para fora e que não se deixa por crenças ou por falta de espírito guerreiro.

O medo da morte assombra os ocidentais que por receio do desconhecido preenchem as suas vidas materializando-as...antes que se lhes acabe o tempo.
No Oriente, a serenidade da morte retira qualquer ambição natural pelo materialismo, pois já sabem aquilo que os espera....para bem ou para o mal.

A diferença é que nós temos que escolher entre o céu e o inferno com o perigo de ficar pelo inventado purgatório;
e eles já nasceram com passaporte para uma outra vida que nunca será comprada a suor de trabalho nem de esforço social.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Quando te vejo....ao longe.

Não são os dias chuvosos
que desencantam
Nem as noites frias que desacalentam.
É o tempo em que a ténue passagem pelo amor
se faz revestida a camadas de muita roupa....

sábado, 25 de dezembro de 2010

Desmaquilhante de Natal

Faz precisamente um ano que me encontrava em estado depressivo e para que não fosse notório brincava ao Natal com todos. Fiz todas as refeições com quem tinha que fazer, troquei presentes com quem tinha que trocar e passei praticamente o tempo em casa amargurada com a sorte da minha vida, ou falta dela, pensava, então.

A falta de sorte na minha vida era atribuída ao facto de não ter uma família minha. Sem conjugue nem crianças comecei a cair na esparrela que a sociedade prepara aos solteiros de meia idade: sem família não se pode ser feliz no Natal....nem em geral.

Ora, hoje, escrevo exactamente para vos contar do que aprendi com muita calma e atenção sobre o que retive deste período festivo que mostra toda a falsidade desta máxima em sociedade.

1º Nem todos escolheram o conjugue com quem vieram a formar família e se o fizeram , por vezes, foi por não quererem ficar mais tempo sozinhos com receio de nunca poderem vir a formar a tal família cobrada pela sua própria família ou ainda por julgarem que não haverá mais ninguém disponível para os amar. 
Os defeitos só pesarão na gerência quotidiana após o nascimento do primeiro filho  e eis quando se começa finalmente a conhecer o conjugue e as consequências da escolha.


2º A maior parte dos casais não têm noção do passo que é a maternidade/paternidade na transformação dos seus quotidianos e a exigência que a educação pressupõe para não se criarem adultos desequilibrados ou monstros.
Falta de tempo, paciência, assertividade e carinho são desculpadas assíduamente com presentes com que se podem distrair as crianças até á fase da adolescência. Depois, começa-se a pagar a factura.


3º Se a vida sexual do casal, enquanto casal não era vivida em plenitude e com entusiasmo....depois da maternidade, acaba de vez e passa-se á desculpabilização do factor de responsabilidade de encarregado de educação, tenham ajuda de terceiros, ou não. 
Acaba o casal e começam as relações extra-conjugais ou os estados depressivos conduzindo o individuo a estados compulsivos de variadas naturezas. Isto, está claro para os que insistem em permanecer casados, mas solitários.


4º A nossa família não a escolhemos, herda-mo-la ao nascer; assim como aos sogros que vêm por acréscimo; e assim que se passa a ter a própria família, por vezes, tensões surgem que nos vão afastando das nossas famílias nucleares assim como dos sogros herdados. A não ser , claro está , que as relações sejam completamente protocolares e superficiais.


5º Os meus amigos divorciados acabam por ser os mais divertidos e bem dispostos durante esta época : não têm que estar com os sogros com quem, especialmente nunca gostaram de privar e podem sempre optar por partir para umas pequenas férias para a neve com os pequenos. E ainda se podem dar ao luxo de escolher com quem querem passar este período tão emocionalmente desgastante,pois têm a desculpa de quererem estar a usufruir a 100% das suas crianças.
Ao contrário do que se diz, os psicólogos chegaram á conclusão de que se os pais mantiverem uma relação sã pós divórcio, as crianças serão tão ou mais felizes do que numa família de "faz de conta".
E as crianças só têm a ganhar, pois levam sempre o tempo e a dedicação exclusiva de cada um que tenta sempre dar o seu melhor.

6º Os casais que sobreviveram com as suas famílias e descendência são casais que desde sempre tiveram muita cumplicidade no seu quotidiano e como tal o sucesso familiar é visivelmente sem esforço e amargura, pois a nomenclatura sólida da relação foi baseada na partilha e comunicação. E esse é o meu conceito de família. 


7º O conceito de presentear os mais próximos durante esta época resulta quase sempre num balanço de pagamento de factura pelos pecados cometidos durante todo ano. A corrida aos presentes mais dispendiosos para agradar no final do ano é obviamente um sentimento de culpa pela falta de todos os outros valores intrínsecos ao conceito de família. E não seria mais apropriado dar o tal presente num momento assertivamente recompensante ?
Porque não presenteamos o ente querido quando este nos mostra o desejo por tal?


Ora, depois de constatar tudo isto, o que me leva a estados depressivos durante esta época?
Ter que lidar com situações de "faz de conta" durante as várias refeições festivas , supostamente , de confraternização e não de acção de maquilhagem como acabam por ser;
Ter que trocar presentes quando não tenho vontade de o fazer;
Ter acreditado até recentemente que ter uma família era o conceito de felicidade máxima e de estabilidade emocional para a minha sobrevivência.


Este ano fez-se luz por tudo o que tenho vindo a constatar ao longo destes anos e finalmente posso dizer que agora sim, já posso decidir que tipo de família quero...e não é nada do que vejo á minha volta; excepto concretamente algumas famílias que guardam consigo o belo segredo da conquista e trabalho afectivo diário; pois como já é do conhecimento comum, nenhum bebé sobreviveria mais do que poucos meses sem amostra de amor e afecto.
E de crianças amadas crescem grandes homens e mulheres.


Um ano cheio de amor, partilha, comunicação, cumplicidade e dinheiro para manter tudo isto mais fluído :-)


E ainda um grande xi-coração ao meu irmão por ser como é !