domingo, 30 de janeiro de 2011

Pós de Bárbaros

Quase me esqueci de guardar o cheiro dos campos de Albarraque ao final do dia,
vagueando como fazia
no meu mundo solitário de criança.

Quase, e enquanto me entregava a ti...a esses cheiros voltava,
tal a liberdade de ser feliz sozinha,
mesmo que a dois, nesse instante.
E quase, nessa liberdade desenfreada de amar o mar que jorrava do teu desejo,
me afogava,
no meu desejo por ti.

Distâncias de braçadas intermináveis nos mares do Algarve,
risadas a lágrimas nas areias quentes do Meco,
ronronares dos meus gatos elegantemente aninhados no meu colo
e as faustosas refeições no alpendre da casa isolada na Costa Alentejana...
tantos sabores, odores de felicidade gravados no meu olhar,
esse mesmo, que de vez em quando olhas,
sem saberes o que quer dizer
quando te fixo...
só na esperança de poder guardar o teu olhar como :
o mar, o campo, o riso e o alpendre da minha casa...
onde não queres entrar.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Esqueci-me de mim, enquanto buscava o prazer contigo.
 
Esqueci-me de te dizer que:
sou especial....  se  não reparaste;
que sei que não sentes... para não vires a sofrer.
Esqueci-me que amar dói....mas sem amor não sei viver.
Esqueço-me que tens de merecer este amor... mesmo que nada te cobre por ele.
E esqueço-me sempre de me esquecer um pouco de ti.
Esqueceste que não tens mais ninguém que te ame assim... como eu... a dois.
Esqueceste, simplesmente de te deixar levar pelo amor;
de apreciares o seu sabor,
o seu valor.

Um dia destes vou esquecer-me de ti...
E nesse dia... não te vais mais esquecer de mim !

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Existem castas e chão que já deu uvas.....

Hoje quando abri o Diário de Negócios deparei-me com um artigo do Leonel Moura, artista da nossa praça e individuo que tinha com alguma erudição - e para quem seja mais distraído, o Leonel foi quem fez as instalações das oliveiras em bancos de plástico á beira Tejo de que tanto gostei.

Na sua viagem a Bombaim, Leonel estava chocado com a miséria que havia ao seu redor e logo á esquina do famoso hotel onde ficara hospedado : Taj Mahal. 
Insistiu em revelar as estatísticas de quantos dormiam em grupo na rua , sós ao relento e finalmente os que tinham um telhado...16% da população de Bombaim.

A mim , estes relatos já não me chocam por saber que a religião hindu com o seu complicado e hierárquico sistema de castas segregam desde a nascença a população Indiana e por ser uma democracia politica e não religiosa....um factor é subalterno ao outro e não há grande coisa a fazer.

Os Indianos são os próprios a acatarem essa decisão" imposta" pelo divino e como tal sorriem e nunca parecem descontentes, nem quando mendigam.

Pois, é Leonel, a miséria é realmente algo que vem de dentro para fora e que não se deixa por crenças ou por falta de espírito guerreiro.

O medo da morte assombra os ocidentais que por receio do desconhecido preenchem as suas vidas materializando-as...antes que se lhes acabe o tempo.
No Oriente, a serenidade da morte retira qualquer ambição natural pelo materialismo, pois já sabem aquilo que os espera....para bem ou para o mal.

A diferença é que nós temos que escolher entre o céu e o inferno com o perigo de ficar pelo inventado purgatório;
e eles já nasceram com passaporte para uma outra vida que nunca será comprada a suor de trabalho nem de esforço social.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Quando te vejo....ao longe.

Não são os dias chuvosos
que desencantam
Nem as noites frias que desacalentam.
É o tempo em que a ténue passagem pelo amor
se faz revestida a camadas de muita roupa....

sábado, 25 de dezembro de 2010

Desmaquilhante de Natal

Faz precisamente um ano que me encontrava em estado depressivo e para que não fosse notório brincava ao Natal com todos. Fiz todas as refeições com quem tinha que fazer, troquei presentes com quem tinha que trocar e passei praticamente o tempo em casa amargurada com a sorte da minha vida, ou falta dela, pensava, então.

A falta de sorte na minha vida era atribuída ao facto de não ter uma família minha. Sem conjugue nem crianças comecei a cair na esparrela que a sociedade prepara aos solteiros de meia idade: sem família não se pode ser feliz no Natal....nem em geral.

Ora, hoje, escrevo exactamente para vos contar do que aprendi com muita calma e atenção sobre o que retive deste período festivo que mostra toda a falsidade desta máxima em sociedade.

1º Nem todos escolheram o conjugue com quem vieram a formar família e se o fizeram , por vezes, foi por não quererem ficar mais tempo sozinhos com receio de nunca poderem vir a formar a tal família cobrada pela sua própria família ou ainda por julgarem que não haverá mais ninguém disponível para os amar. 
Os defeitos só pesarão na gerência quotidiana após o nascimento do primeiro filho  e eis quando se começa finalmente a conhecer o conjugue e as consequências da escolha.


2º A maior parte dos casais não têm noção do passo que é a maternidade/paternidade na transformação dos seus quotidianos e a exigência que a educação pressupõe para não se criarem adultos desequilibrados ou monstros.
Falta de tempo, paciência, assertividade e carinho são desculpadas assíduamente com presentes com que se podem distrair as crianças até á fase da adolescência. Depois, começa-se a pagar a factura.


3º Se a vida sexual do casal, enquanto casal não era vivida em plenitude e com entusiasmo....depois da maternidade, acaba de vez e passa-se á desculpabilização do factor de responsabilidade de encarregado de educação, tenham ajuda de terceiros, ou não. 
Acaba o casal e começam as relações extra-conjugais ou os estados depressivos conduzindo o individuo a estados compulsivos de variadas naturezas. Isto, está claro para os que insistem em permanecer casados, mas solitários.


4º A nossa família não a escolhemos, herda-mo-la ao nascer; assim como aos sogros que vêm por acréscimo; e assim que se passa a ter a própria família, por vezes, tensões surgem que nos vão afastando das nossas famílias nucleares assim como dos sogros herdados. A não ser , claro está , que as relações sejam completamente protocolares e superficiais.


5º Os meus amigos divorciados acabam por ser os mais divertidos e bem dispostos durante esta época : não têm que estar com os sogros com quem, especialmente nunca gostaram de privar e podem sempre optar por partir para umas pequenas férias para a neve com os pequenos. E ainda se podem dar ao luxo de escolher com quem querem passar este período tão emocionalmente desgastante,pois têm a desculpa de quererem estar a usufruir a 100% das suas crianças.
Ao contrário do que se diz, os psicólogos chegaram á conclusão de que se os pais mantiverem uma relação sã pós divórcio, as crianças serão tão ou mais felizes do que numa família de "faz de conta".
E as crianças só têm a ganhar, pois levam sempre o tempo e a dedicação exclusiva de cada um que tenta sempre dar o seu melhor.

6º Os casais que sobreviveram com as suas famílias e descendência são casais que desde sempre tiveram muita cumplicidade no seu quotidiano e como tal o sucesso familiar é visivelmente sem esforço e amargura, pois a nomenclatura sólida da relação foi baseada na partilha e comunicação. E esse é o meu conceito de família. 


7º O conceito de presentear os mais próximos durante esta época resulta quase sempre num balanço de pagamento de factura pelos pecados cometidos durante todo ano. A corrida aos presentes mais dispendiosos para agradar no final do ano é obviamente um sentimento de culpa pela falta de todos os outros valores intrínsecos ao conceito de família. E não seria mais apropriado dar o tal presente num momento assertivamente recompensante ?
Porque não presenteamos o ente querido quando este nos mostra o desejo por tal?


Ora, depois de constatar tudo isto, o que me leva a estados depressivos durante esta época?
Ter que lidar com situações de "faz de conta" durante as várias refeições festivas , supostamente , de confraternização e não de acção de maquilhagem como acabam por ser;
Ter que trocar presentes quando não tenho vontade de o fazer;
Ter acreditado até recentemente que ter uma família era o conceito de felicidade máxima e de estabilidade emocional para a minha sobrevivência.


Este ano fez-se luz por tudo o que tenho vindo a constatar ao longo destes anos e finalmente posso dizer que agora sim, já posso decidir que tipo de família quero...e não é nada do que vejo á minha volta; excepto concretamente algumas famílias que guardam consigo o belo segredo da conquista e trabalho afectivo diário; pois como já é do conhecimento comum, nenhum bebé sobreviveria mais do que poucos meses sem amostra de amor e afecto.
E de crianças amadas crescem grandes homens e mulheres.


Um ano cheio de amor, partilha, comunicação, cumplicidade e dinheiro para manter tudo isto mais fluído :-)


E ainda um grande xi-coração ao meu irmão por ser como é !





quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Surf na Sumatra

Saí de casa ao final da tarde na esperança de mudar a configuração dos meus pensamentos.
Em 5 m estava na Fundação Oriente onde estaria a Sofia á minha espera para irmos para o nosso bar á beira rio onde tanto gostamos de trocar conversa.
Estava a atender clientes e veio-me cumprimentar, confidenciando-me algo que viria a ser o motor do seguimento dos eventos a narrar.

Decidi subir até ao 5ºandar onde se passaria então - o dito evento que a Sofia me sussurrara enquanto me abraçava e que estaria ligado á prática de surfe.

As portas do elevador abriram-se e os 2 homens: um, obviamente surfista e outro senhor com ar muito distinto deram-me passagem.
Imediatamente o sr. de ar distinto começou a confidenciar-me que tinha ficado muito impressionado com um chá chinês que comprara á Sofia e que consistia só numa flor , sendo uma ideia de presente lindíssima para uma senhora.
Aquiesci com um sorriso confirmando que já o experimentara e logo o sr. quis saber qual era o meu programa e a razão de falar um inglês assim...
Quando lhe disse que era guia-Intérprete e que estava ali para ver o livro sobre o surfe na Sumatra , o Sr.Hussain, que agora me dava um cartão de apresentação onde estaria escrito : embaixador do Iraque, pediu-me que o seguisse , pois ele seria um dos speakers nesse evento.

E, curiosa de essência, lá o segui lado a lado com uma vontade enorme de lhe perguntar o que é que o embaixador do Iraque teria a dizer num evento sobre a Sumatra...

( Se alguém me vir ao lado do Sr. Embaixador do Iraque a entrar na sala do evento como se fosse a sua companhia aquando os flash dos fotógrafos dispararam...já sabem que foi um mero acaso de percurso.)

 Muito gentilmente propôs-me que me servisse um copo de vinho e que me juntasse á festa.
Invadido pelos media, afastei-me rapidamente e peguei no livro em lançamento , sentei-me e deliciei-me com as fotos e textos lindíssimos dos surfistas da nossa praça Atlântica, mas em Sumatra.
Só fui interrompida por uma das meninas que faziam assinar o livro em questão que me perguntou se seria alguma das surfistas naquele livro. Respondi-lhe que não, sorrindo e insistiu para que o assinasse na mesma.

Curiosos eventos, mas que fazem pequenas histórias para um dia contar a amigos enquanto se trocam episódios bizarros na nossa vida.
Uma sequência de eventos que renderam á Sofia, aquele sorriso ambíguo entre o desvario e a incredulidade e que me repuseram a boa disposição.